Essa crônica eu achei navegando num newsgroup…
Re-Edição: Mais textos de Luís Fernando Veríssimo são facilmente econtrados no Google. Existem alguns no site oficial http://portalliteral.terra.com.br/verissimo/
——– Mensagem Original ——–
De: Cesar A. K. Grossmann
Newsgroups: u-br.lazer.artes.literatura
Antes que duvidem, esta crônica foi publicada no jornal Zero Hora, então
eu tenho quase que absoluta certeza que o Veríssimo vai concordar com a
atribuição…
-o=O=o-
27/02/2005
Sonho de Verão
As pessoas são mais inteligentes dormindo do que acordadas. Seus sonhos
são sofisticadas narrativas cifradas, de grande complexidade temática
Do baú. As pessoas são mais inteligentes dormindo do que acordadas.
Todas sonham, mesmo que não se lembrem depois, e seus sonhos são
sofisticadas narrativas cifradas, de grande complexidade temática e
riqueza simbólica. Meninos de rua sonham como Jorge Luis Borges,
debutantes vazias levam a arte da elipse visual a extremos de
criatividade e até engenheiros são surrealistas oníricos, quando dormem.
O sonho não é apenas o grande nivelador – qualquer cerzideira escreveria
como a Clarice Lispector se apenas pudesse botar a trama dos seus sonhos
num papel -, também é o grande apagador de fronteiras sociais: os sonhos
da prostituta e do arcebispo estão plugados no mesmo provedor que
fornece signos e disfarces de seus desejos e medos para todo o mundo. Os
sonhos só não são a linguagem comum da espécie porque ainda não se
chegou a um vocabulário comum para entendê-los. As mensagens são as
mesmas para todos nós, variam as nossas interpretações. Há dias tive um
sonho inteligentíssimo, e claríssimo – enquanto eu sonhava. Mas aí,
danação, acordei e não entendi mais nada.
* * *
Eu estava no meio do mar, mexendo braços e pernas para me manter à tona,
e de alguma forma eu sabia que quilômetros abaixo dos meus pés estava a
carcaça do Titanic. De acordo com a ortodoxia freudiana, sonhar com água
tem alguma coisa a ver com sexo. Pensando bem, para a ortodoxia
freudiana tudo tem alguma coisa a ver com sexo, água é só o mais óbvio.
Mas como já estou naquela idade em que nem a ortodoxia freudiana
funciona como antes, interpretei minha situação como a continuação, no
mundo cifrado, do pensamento que começara antes de dormir. Isso
raramente funciona, como você sabe. Pouco adianta você pensar com força
na Luana Piovani antes de dormir, ela não aparecerá no seu sonho. Pode
aparecer um símbolo da Luana Piovani, mas isso você só saberá depois, na
interpretação (era aquele pássaro!), quando for tarde demais. Deduzi que
eu estava sonhando o meu pensamento sobre a condição humana. O Oceano
Atlântico era o Tempo. Eu, modestamente, era a Humanidade.
* * *
O que era a carcaça do Titanic no fundo do mar? Me lembrei de ter ficado
impressionado na primeira vez em que vi uma reconstituição gráfica do
Titanic no chão do oceano, depois que localizaram os destroços. Como era
fundo o fundo! O Titanic estava no meu sonho como referência, portanto.
A distância entre a superfície do mar e o chão onde repousava sua
carcaça simbolizava o tempo transcorrido desde a criação do mundo, a
minha ridícula altura representava o tempo da nossa existência no
planeta. Contando todas as nossas formas pré-históricas desde o primeiro
hominídeo, somos uma espécie recentíssima. E mesmo na síntese histórica
do meu corpo agitado, só a porção da testa para cima representava o
homem agrícola-pastoril-industrial que começamos a ser anteontem, em
termos relativos. Durante a maior parte, quase noventa por cento do
nosso passado como gente, fomos caçadores-catadores. Ainda temos os
dentes caninos, e uma vaga inquietude de nômades, para nos lembrar desse
tempo. Dizem até que éramos melhores então: comíamos mais proteínas e
tínhamos uma dieta mais variada antes de descobrir a agricultura – e
fazíamos mais exercício. Com a agricultura e a domesticação de animais
vieram as monoculturas, o sedentarismo e os primeiros grupos humanos a
conviver com dejetos, os seus e os dos seus bichos. Nasciam, ao mesmo
tempo, a civilização e a falta de higiene.
* * *
Qual era, então, o meu significado, na superfície daquele oceano, a
quilômetros do seu fundo e da origem da vida? Acho que eu era um símbolo
da megalomania humana, da nossa absurda pretensão que 10 mil anos de
existência ereta nos dão um significado maior do que o da libélula, que
vive só um dia. Em comparação com o tempo transcorrido desde que a
primeira ameba se dividiu no miasma borbulhante, a espécie humana também
viveu só um dia. E uma noite, para sonhar com ele. Me debatendo no meio
do oceano simbólico, eu não passava de um mosquito na superfície de um
caldeirão de melado, convencido que toda aquela doçura era em seu
louvor. A síntese do meu sonho era que somos mosquitos pretensiosos.
* * *
Mas aí veio uma barcaça embandeirada com a Cleópatra e o Dom Pedro II
abraçados na popa, enquanto alguém na proa gritava na minha direção:
- Deleta! Deleta!
Acordei e o significado do sonho ficou obscuro.
-o=O=o-
